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Diabetes e visão: o exame que não deve adiar
A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira em Portugal e não dá sintomas até ser tarde. Explicamos o que é, quem deve fazer o rastreio e com que frequência.

Quando se fala de diabetes, há um aspeto que costuma ficar de fora da conversa: os olhos. A retinopatia diabética é uma das três principais causas de cegueira irreversível em Portugal — e uma das mais evitáveis.
O que a diabetes faz à retina
A retina é o tecido que reveste o fundo do olho e converte a luz em sinal nervoso. É irrigada por vasos sanguíneos muito finos.
Níveis elevados de glicose no sangue, mantidos ao longo do tempo, danificam as paredes desses vasos. Eles tornam-se permeáveis e começam a deixar escapar líquido e sangue para o tecido da retina. Em fases mais avançadas, o organismo tenta compensar formando vasos novos — mas são frágeis e sangram com facilidade.
Este processo chama-se retinopatia diabética e é silencioso durante anos.
Porque é que não dá sintomas
Esta é a parte que apanha as pessoas desprevenidas.
As primeiras alterações acontecem tipicamente na periferia da retina, longe da zona responsável pela visão central. Uma pessoa pode ter retinopatia já estabelecida e continuar a ler, a conduzir e a trabalhar sem notar nada.
A visão só é afetada quando o problema chega à mácula — a zona central — ou quando ocorre uma hemorragia. Nessa altura, o dano acumulado já é considerável.
Por isso o rastreio não depende de sintomas. Depende do calendário.
Quem deve fazer e quando
- Diabetes tipo 2: exame no momento do diagnóstico e depois anualmente. Muitas pessoas vivem com diabetes tipo 2 sem saber durante anos, pelo que já pode haver alterações à partida.
- Diabetes tipo 1: primeiro exame cerca de cinco anos após o diagnóstico e depois anualmente.
- Gravidez com diabetes prévia: acompanhamento mais próximo, porque a gestação pode acelerar a progressão.
- Com alterações já detetadas: intervalos mais curtos, conforme indicação médica.
O rastreio da retinopatia diabética existe no Serviço Nacional de Saúde e é gratuito para quem está referenciado. Se tem diabetes e nunca ninguém lhe falou nisso, pergunte na sua unidade de saúde.
Fatores que aumentam o risco
- Muitos anos de doença
- Controlo glicémico irregular, com valores altos mantidos
- Hipertensão arterial
- Colesterol elevado
- Tabagismo
- Doença renal associada
A boa notícia é que quase todos são modificáveis. Um controlo apertado da glicemia e da tensão arterial reduz substancialmente o risco de desenvolver retinopatia e abranda a que já existe.
O que pode aparecer, quando aparece
Sinais que exigem avaliação sem esperar pela consulta anual:
- Visão turva ou a oscilar ao longo do dia
- Manchas escuras ou "teias" que aparecem de repente
- Dificuldade a ler que se instalou em pouco tempo
- Zonas do campo visual em falta
- Cores menos vivas
- Dificuldade acrescida a ver à noite
Nota importante: oscilações de visão ao longo do dia podem também ser efeito direto de variações de glicemia sobre o cristalino, e não retinopatia. Mas isso distingue-se em consulta, não em casa.
O que fazemos numa ótica
O diagnóstico e o tratamento da retinopatia diabética são competência médica. O papel de uma ótica é outro: avaliar a função visual, acompanhar alterações ao longo do tempo e encaminhar para oftalmologia quando encontramos algo que o justifique.
Numa avaliação de rotina de uma pessoa com diabetes damos atenção especial à acuidade visual, a alterações recentes e ao campo visual.
Se tem diabetes e já não faz uma avaliação visual há mais de um ano, marque. É das coisas mais simples que pode fazer pela sua visão a longo prazo.
Perguntas frequentes
Com que frequência deve uma pessoa com diabetes fazer o exame aos olhos?
Pelo menos uma vez por ano, independentemente de ver bem e de a diabetes estar controlada. Se já existirem alterações na retina, o intervalo é encurtado conforme a indicação médica. Na diabetes tipo 2, o exame deve ser feito logo no momento do diagnóstico.
Se a minha diabetes está controlada, posso dispensar o exame?
Não. Um bom controlo reduz muito o risco, mas não o elimina, e a retinopatia pode instalar-se sem que a pessoa dê por isso. O exame anual mantém-se mesmo com valores exemplares — é ele que deteta as alterações numa fase em que ainda há muito a fazer.
A retinopatia diabética tem tratamento?
Tem, e é eficaz quando aplicado a tempo — laser, injeções intraoculares ou cirurgia, conforme o estádio. O que o tratamento faz é travar a progressão e preservar a visão existente. A visão já perdida raramente se recupera, o que explica a insistência na deteção precoce.


